
A alma e sua retificação: Tikun
Alguns vivem vinte anos, outros vivem cem, mas todos eventualmente deixaremos este mundo no exato momento em que Hashem decidir. Um conjunto complexo de considerações Divinas influencia as circunstâncias da vida e da longevidade de uma pessoa - ações, vidas passadas, leis públicas e outros critérios que desafiam o nosso entendimento.

A crença em um Mundo Vindouro é a base da verdadeira Emuná (fé), e oferece uma explicação para muitas das dificuldades da vida. Nosso poder de compreensão e percepção se intensifica quando percebemos que a vida começa bem antes do nascimento e continua por muito tempo depois da morte.
Eis uma história verdadeira sobre uma tragédia que estremeceu a própria fundação da Emuná em Hashem de toda uma comunidade judaica:
Uma bela jovem – filha de uma das famílias mais respeitadas da comunidade – se casou com um justo comerciante, um homem caridoso e compassivo. Os primeiros anos do casamento foram abençoados com felicidade, abundância e filhos. A esposa modesta se tornou uma mãe maravilhosa, que usava cada minuto livre do seu dia atarefado para recitar salmos ou para cuidar dos pobres e desprivilegiados da comunidade. O marido, cujo comércio de sucesso o levava a cidades e vilas vizinhas, nunca deixou de cumprir uma rígida cota diária de reza e estudo de Torá. Ademais, ele doava quantias enormes para caridades de todo o país, suavizando o sofrimento de milhares de pessoas empobrecidas.
Mas, de súbito, uma tragédia aconteceu. A casa da família – uma luz de caridade, boas ações e bondade – se transformou em uma cena de agonia. Um soldado bêbado molestou, mutilou e assassinou um filho de três anos do casal! A comunidade inteira ficou aterrorizada. Milhares de pessoas se juntaram ao luto, inclusive os sábios e líderes espirituais do país. Ninguém entendia. Muitos pronunciaram suas dúvidas em público: “Esta é a recompensa que um casal tão justo merece? Por que Hashem fez algo tão horrível com eles? Por que a pobre criança tinha de sofrer tanto?” Outros cultivavam sentimentos contra Hashem, o que enfraquecia a Emuná e os distanciava da Torá.
O casal reagiu com Emuná total, resignação e aceitação do decreto Divino. Eles continuaram com seu estilo de vida honrado, como se nada tivesse mudado – a esposa com seus atos de bondade e o marido com seu estudo de Torá e grande caridade. Pouco tempo depois, outra tragédia se abateu sobre eles.
Espalhou-se rapidamente a notícia de que o íntegro comerciante estava doente em um estado terminal. Todas as sinagogas locais mobilizaram seus membros para vigílias de rezas vinte e quatro horas por dia. Todos amavam o comerciante. A sua generosidade beneficiara quase todos na cidade. Compreensivelmente, os lamentos da comunidade ultrapassaram os portões dos Céus.
Um dos homens da comunidade entrou correndo na principal sinagoga da cidade, onde o rabino-chefe rezava, e gritou: “Os médicos nos deram esperança! Eles disseram que o fim está próximo!”. O rabino-chefe, ele mesmo um pilar de retidão e mestre da lei talmúdica, declarou vigorosamente, mas com calma: “Isto não acontecerá! Nenhum mal recairá sobre nosso irmão, o justo comerciante!”. A dor e o espanto de toda a cidade chegaram a novos patamares quando a notícia da morte do comerciante se tornou assunto comum entre todos. Um homem tão jovem, no auge da vida – ele já não tinha sofrido o bastante? Ele fez apenas boas ações durante toda a vida; é isso o que ele merecia? As lágrimas da jovem viúva de 35 anos feriam o coração da já perplexa comunidade.
Alguns anos se passaram. Em uma sexta-feira à tarde, um dos filhos recém-casado da jovem viúva veio desejar “Shabat shalom” à mãe; ela tentou sorrir, mas não conseguiu e desatou a chorar. “Mãe”, disse o jovem, “já se passaram três anos. Você já chorou o suficiente! Os nossos sábios estabeleceram períodos determinados para o luto. Se alguém chora mais do que deve, a tristeza nunca vai embora! Temos Emuná e nenhum de nós pode saber os motivos de Hashem. Tudo o que Ele faz é para o nosso bem! Mãe, o seu pranto não apenas nos entristece – a seus filhos -, mas também entristece a alma do papai. As casamenteiras a procuram com várias boas propostas, mas você as evita. Mãe, por favor, você precisa seguir a sua vida.”
A jovem viúva respirou fundo. Basta! Ela tomou a decisão de superar a tristeza. Um pensamento encorajador passou por sua mente: “Serei eu mais compassiva do que Hashem? É claro que não! Sempre confiei em Hashem, por que não posso ser feliz?” Para o alívio de seus filhos preocupados – naquele Shabat – aquela mãe se tornou uma nova pessoa.
Pela primeira vez em anos, a viúva dormiu profundamente e em paz. Ela compreendeu que a falta de Emuná – e não a ausência do marido – era responsável pelo vazio em seu coração. Agora, aquele vazio estava preenchido novamente.
E então, ela teve um sonho… Ela se viu em um jardim exótico de beleza sobrenatural, e entendeu que aquele devia ser o mundo vindouro. Parada em meio a árvores de flores aromáticas, ela viu a imagem radiante de um velho com uma longa barba. Ele se aproximou e perguntou se ela gostaria de ver o seu falecido marido. Ela concordou com a cabeça. Ele a levou a um magnífico palácio onde um jovem dava aula de Torá para milhares de almas de justos anciões. Quando a aula terminou, o professor se aproximou – era o seu marido!
“Meu querido marido! Por que você me abandonou tão cedo? Como se tornou professor de tantos Tzadikim? Você era comerciante e um homem honesto, mas nunca foi um sábio.
O marido sorriu: “Em minha vida passada, eu era um grande sábio, mas não me casei. Quando morri, me disseram que eu não poderia assumir o meu lugar nos palácios superiores do céu porque eu não havia cumprido o primeiro mandamento da Torá – frutifique e se multiplique. Por isso, reencarnei com o único propósito de me casar, ter filhos e criá-los no caminho da Torá. Foi exatamente isso o que fiz. Assim que completei meu Tikun – a retificação da minha alma e a minha missão na Terra -, eu não precisava permanecer lá embaixo. Agora, como pode ver, tenho uma vida de eterno êxtase…”
“Então por que nosso filhinho morreu?”, perguntou a mulher.
O marido respondeu: “Ele é a elevada alma de um santo Tzadik, um indivíduo extremamente justo. Em sua vida passada, ele foi sequestrado logo após o nascimento, sendo alimentado com o leite de uma “mãe substituta” goyia. Finalmente, aos três anos, ele foi resgatado pela comunidade judaica e depois se tornou um sábio de grande proporção espiritual. Mas, depois da morte, negaram-lhe seu legítimo lugar no céu, já que sua infância havia deixado uma pequena mácula em sua alma. Seu único Tikun era retornar à Terra, nascer e ser amamentado e criado durante três anos por uma mulher judia honrada; e você, querida esposa, teve o privilégio de ser esta mulher!”
“Mas por que a morte dele foi tão horrível?”
“Quando nosso filho completou seu Tikun ,” continuou o marido, “ele estava destinado a morrer de qualquer jeito. Ao mesmo tempo, a Corte Celeste havia decretado – por causa dos grandes pecados entre o homem e seu próximo na nossa cidade – que todos os habitantes da cidade seriam destruídos em um massacre catastrófico. A justa alma do nosso pequeno se ofereceu a passar por uma morte terrível para redimir toda a cidade. Ele se tornou um sagrado mártir e se santificou como sacrifício público. Ninguém pode chegar à sua elevada morada nos céus, exceto eu, que fui seu pai. Quando sua hora chegar, você – como mãe dele – também poderá entrar. Você não pode imaginar o êxtase de luz Divina que cerca o nosso filho…”
O marido despareceu. Antes de partir, sua voz reverberou: “Apenas em virtude da sua Emuná reforçada eu me revelei para você! Enquanto você estava em uma nuvem de tristeza, quase perdeu outro filho. Todos os meus pedidos de me revelar para você foram negados… o meu Tikun acabou, mas você ainda tem muito a fazer. Vá, case-se novamente e leve uma vida de Emuná e alegria. Vá com a minha bênção… adeus!” E a imagem dele desapareceu completamente. A viúva acordou. Ela sentia como se tivesse nascido de novo. Ela entendeu que suas questões – assim como as questões do resto da cidade – eram desnecessárias.
Se a Torá ensina que Hashem é bom e justo, não há necessidade de pensarmos por que motivo Hashem faz o que faz. Aqueles de nós que não merecem revelações durante o sono devem se esforçar para fortalecer a Emuná. O conhecimento de que Hashem faz tudo para o nosso benefício deve estar gravado no coração e na mente. Cada um de nós vem a este mundo com o propósito expresso de cumprir uma missão. A longevidade depende da tarefa que temos de completar. A morte – mesmo em decorrência de uma tragédia ou de um acidente repentino – é sempre o resultado da decisão de Hashem. Alguns vivem vinte anos, outros vivem cem, mas todos eventualmente deixaremos este mundo no exato momento em que Hashem decidir. Um conjunto complexo de considerações Divinas influencia as circunstâncias da vida e da longevidade de uma pessoa – ações, vidas passadas, leis públicas e outros critérios que desafiam o nosso entendimento.
Algumas almas vêm a Terra para cumprir um Tikun breve e específico e depois retornam aos mundos superiores. Essas almas são geralmente pessoas extraordinariamente especiais, gentis, boas e agradáveis, com pouca ou nenhuma inclinação para o mal. Portanto, não se surpreenda quando ouvir sobre pessoas jovens e justas que morreram repentinamente. Elas simplesmente completaram o Tikun – a retificação de sua alma e a sua missão na Terra.
O Rabino Yitzchak Luria Ashkenazi, o famoso pai da cabalá, o “Arizal” – da cidade de Tsfat do século 17 -, ensina que encontramos mais resistência com relação à nossa missão na Terra, já que o ietser hará – a inclinação para o mal – não quer que completemos a nossa missão com êxito. Isso significa que quanto mais o ietser hará nos impede, mais temos o que realizar na Terra.
As vezes, a falta de até mesmo um pequeno (mas crucial) detalhe faz a bondade de Hashem parecer crueldade, D’us nos livre. Como em um quebra-cabeça, se uma peça está faltando, toda a imagem parece incompleta. A Emuná – nossa confiança e crença inabalável em Hashem – preenche os espaços das peças que faltam, criadas pela nossa visão limitada.
-Texto extraído do livro O Jardim da Emuná, escrito pelo Rabino Shalom Arush
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